
Um grupo de astronautas volta de um voo experimental com poderes impossíveis. No horizonte, uma sombra do tamanho de um planeta: Galactus. E um visual retrofuturista que parece ter saído de uma capa de quadrinho dos anos 60. É nesse clima que a Marvel joga suas fichas em Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, previsto para 24 de julho de 2025, reposicionando a equipe mais “família” dos quadrinhos como peça central do MCU.
O filme, dirigido por Matt Shakman (WandaVision), tem um elenco de peso: Pedro Pascal como Reed Richards/Mr. Fantástico, Vanessa Kirby como Sue Storm/Mulher-Invisível, Joseph Quinn como Johnny Storm/Tocha Humana e Ebon Moss-Bachrach como Ben Grimm/O Coisa. Do lado oposto, Ralph Ineson interpreta Galactus, enquanto Julia Garner assume a prancha como Surfista Prateada — em uma leitura que deve explorar a figura do arauto do devorador de mundos. Também estão no time Paul Walter Hauser, John Malkovich, Natasha Lyonne e Sarah Niles, em papéis ainda mantidos em sigilo.
Segundo o que foi divulgado até agora, a trama abraça a origem clássica: a equipe ganha poderes após se expor a radiação cósmica em uma missão experimental. O detalhe que muda o jogo é o estilo: um mundo vibrante, retrofuturista, inspirado nos anos 60, com design que remete diretamente à fase de Jack Kirby nos quadrinhos. Esse recorte não é só estética. Ele cria identidade própria dentro do MCU e pode resolver um dilema de continuidade: como apresentar o Quarteto sem “brigar” por espaço com os Vingadores contemporâneos?
Nos bastidores, a Marvel trata o projeto como um pilar da fase que se aproxima do clímax da saga multiversal. É o 37º longa do MCU e, na contagem histórica da equipe, o quinto filme e o segundo reboot. Depois de anos de idas e vindas — e do impacto das greves de 2023 no calendário de Hollywood —, a produção de Shakman virou vitrine para a estratégia do estúdio: menos lançamentos por ano, mais tempo de pós-produção e foco em direções visuais marcantes. O material promocional que já circulou reforça essa assinatura sixties, do figurino à arquitetura, algo raro na linha Marvel recente.
O elenco ajuda a explicar o tom. Pascal tende a puxar Reed para o lado do cientista obsessivo, mas de coração exposto; Kirby pode dar sofisticação e protagonismo a Sue, peça emocional da equipe; Quinn traz o humor e a irreverência de Johnny; e Moss-Bachrach, fresco do sucesso de papéis complexos, tem a chance de fazer um Ben Grimm humano de verdade por trás das rochas. Do outro lado, Ineson tem a voz e a presença física para um Galactus que imponha respeito sem virar só um efeito digital, enquanto Garner abre espaço para um Surfista com camadas, dividido entre dever e consciência.
O que se sabe e o que está em jogo
O plano é simples de entender e difícil de executar: resgatar a aventura científica, a dinâmica de família e o senso de maravilhamento que fizeram do Quarteto um marco nos quadrinhos. Se funcionar, o filme recoloca a Marvel numa chave de fantasia científica que o público não vê há tempos no MCU, mais “explorar o desconhecido” e menos “salvar o mundo pela milésima vez”. Com Galactus e o Surfista, as apostas sobem para o nível cósmico sem depender de piadas a cada cena ou de referências internas para fazer sentido.
A escolha por um período estético específico também conversa com a saturação recente da franquia. Em vez de repetir a paleta e o humor de costume, a Marvel tenta uma assinatura que salta aos olhos e se diferencia no feed. Isso pode ajudar em duas frentes: crítica, que vem cobrando risco criativo, e público, que reconhece de cara um filme com personalidade — algo que pesou a favor de Guardiões da Galáxia Vol. 3 e de WandaVision, cada um à sua maneira.
Há riscos, claro. O retrofuturismo precisa ser mais que verniz. A história precisa sustentar a forma com um conflito claro, arcos de personagem fechados e um vilão que mova a trama. Galactus é conceito gigante — literalmente — e pode virar cartaz sem alma se não houver uma lógica dramática por trás. A boa notícia é que o Surfista Prateada funciona muito bem como ponte emocional entre a ameaça cósmica e os humanos no chão.
- Pontos a favor: elenco com carisma e variedade, diretor com experiência em misturar gêneros, identidade visual clara e vilões com peso mítico.
- Desafios: equilibrar humor e gravidade, evitar o excesso de CGI sem propósito, e dar tempo de tela justo aos quatro protagonistas sem dispersar em subtramas.
No mercado, a data também diz muito. A janela de julho costuma ser a mais concorrida do ano, com potencial de férias escolares e correria aos cinemas. Para a Marvel, é o tipo de lançamento que precisa performar bem na estreia e manter fôlego por boca a boca positivo — algo que só vem quando a história entrega.

Por que a disputa com Thunderbolts importa
Thunderbolts chega no mesmo ciclo anual do MCU com uma proposta diferente: um time de anti-heróis e agentes ambíguos, reunindo Yelena Belova (Florence Pugh), Bucky Barnes (Sebastian Stan), Guardião Vermelho (David Harbour), Agente Americano (Wyatt Russell), Fantasma (Hannah John-Kamen), Treinadora/Taskmaster (Olga Kurylenko) e Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus), sob a direção de Jake Schreier. É um filme de moral cinzenta, mais terreno e político, que conversa com espionagem e operações encobertas.
Na prática, são propostas que quase não se sobrepõem. O Quarteto joga no campo da ciência fantástica e da imaginação cósmica; Thunderbolts foca nos dilemas éticos e no custo humano de decisões sujas. A comparação inevitável vai acontecer em bilheteria e em recepção crítica, mas a decisão do público passa por outra pergunta: que sabor de Marvel você quer ver em 2025?
Se a conversa é “escapar da lista de piores do MCU”, o caminho do Quarteto passa por escolhas claras.
- Identidade antes de fan service: priorizar a história dos quatro e sua dinâmica, sem amontoar participações especiais.
- Vilão com propósito: Galactus e o Surfista precisam mover a trama por motivos críveis, não por um raio azul no céu.
- Tom consistente: humor a serviço dos personagens, não como muleta entre cenas.
- Visual que conta história: a estética anos 60 precisa influenciar decisões, tecnologia e cultura do filme, não só o cartaz.
Thunderbolts, por sua vez, pode se destacar com uma trama coesa e pé no chão, explorando as consequências de escolher o “mal menor”. Se o roteiro entregar dilemas fortes e reviravoltas sem depender do multiverso, pode ser o contraponto perfeito ao espetáculo cósmico do Quarteto. Em um calendário mais enxuto da Marvel, a coexistência de dois tons distintos no mesmo ano pode ser justamente o antídoto para a fadiga.
Do lado da produção, vale observar o tempo de pós e a comunicação. Trailers que mostrem a dinâmica entre Reed, Sue, Johnny e Ben — e não apenas o espetáculo — tendem a aumentar confiança de quem se decepcionou com excessos recentes. Revelar o Surfista gradualmente e guardar Galactus para o cinema pode manter o mistério vivo. E, claro, qualquer sinal de coerência visual entre cenas práticas e CGI vai pesar na percepção de qualidade.
Por enquanto, o que está na mesa é promissor: um elenco afinado, uma ideia visual forte e vilões que importam. Se a execução acompanhar, o Quarteto Fantástico volta não só como homenagem aos anos 60, mas como peça-chave para a fase que vem aí no MCU. E, nesse cenário, a comparação com Thunderbolts deixa de ser duelo e vira vitrine: dois caminhos diferentes para reconquistar o público no mesmo ano.
Escreva um comentário